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O resgate da própria vida PDF Imprimir E-mail
Dom, 16 de Maio de 2010 20:22
Não existe mudança se não existe aceitação. Este princípio me acompanha e me norteia desde que atendi meu primeiro cliente. Aceitar a nós mesmos e nossas dificuldades é o grande desafio do ser humano para conquistar seu equilíbrio físico, emocional e espiritual. A aceitação de nossos reais limites, de nossas perdas e derrotas, de nossos sentimentos, agradáveis ou não, são prenúncios do nosso processo de mudança, que nos acompanha a vida inteira.

No entanto para as pessoas que sofrem de algum mal específico, tais como a depressão, a obesidade, a diabetes, a síndrome do medo, o transtorno bipolar, os que enfrentam a própria morte, os dependentes químicos (alcoolismo e drogadicção) e os co-dependentes, existe um desafio maior, ou seja, o de aceitarem suas próprias doenças, para que assim ocorram efetivas e saudáveis mudanças.

Para você compreender este processo, razão pelo qual escrevo este artigo, precisamos nos reportar para os meados de 1969 onde a Psiquiatra já falecida Elisabeth Kübler Ross, escreveu e lançou um livro chamado “On Death and Dying” – (Sobre a Morte e o Morrer. - Editora Martins Fontes, 1969). Livro este que, além de quebrar o tabu sobre os assuntos que cercam a morte, indica um método inovador para que profissionais, familiares e pacientes em estado terminal possam compreender, elaborar e aceitar a luta e o processo da morte, de uma forma mais digna, mais “leve” e serena , se é que podemos assim dizer.

Ter consciência desta verdade inevitável permite principalmente ao paciente entrar em contato consigo mesmo, resolver pendências, realizar alguns desejos e sonhos e acima de tudo, escolher como quer se despedir da vida, de si mesmo e de seus familiares.

Pioneira neste trabalho, Elisabeth Kübler Ross trouxe ao mundo científico, à comunidade médica da época e ao público de forma geral, uma verdadeira conscientização e despertar sobre a morte e o morrer.

Ela disserta que os pacientes terminais vivenciam e passam por cinco estágios bem definidos ao entrarem em contato com a própria morte. Partindo de um processo de negação, percorrem um longo e difícil caminho que passa pela raiva, negociação e depressão até chegarem ao último estágio, aceitando a própria morte com tranqüilidade e paz.

Imagino que vocês devam estar pensando e se perguntando qual a relação da morte propriamente dita com o tema ao qual pretendo abordar: a dependência química e a co-dependência. Por isso é importante que eu abra aqui um parêntese. Embora, aparentemente, o início deste artigo não traga nenhuma associação com estes dois temas, guarda entretanto a partir de Terence Williams, Conselheiro em dependência química em Hazelden – Universidade de Minnesota, esta compreensão e uma relação bem próxima, direta e objetiva entre esses dois “universos”.

Mas a morte aqui nada tem a ver com o sentido literal da palavra. Enquanto para os pacientes terminais, a morte representa o fim de suas vidas e de todos os seus relacionamentos, já para o dependente químico significa o fim de seu relacionamento com a bebida e/ou drogas, e para as pessoas emocionalmente envolvidas com o mesmo – os co-dependentes – o fim de uma dinâmica familiar caótica e de relacionamentos doentios, principalmente em relação ao seu familiar doente.

Em seu artigo “Livre para Amar”, traduzido do folheto “Free to Care: Terapy for The Whole Family of Concern Persons”, Terence Williams, faz uma riquíssima e coerente associação entre os estágios que Elisabeth Kübler Ross relatou em seu estudo com pacientes terminais, com os processos vivenciados pelos dependentes químicos, como também pelas pessoas que estão envolvidas diretamente com o mesmo, sejam familiares, cônjuges, amigos próximos, empregadores – os chamados co-dependentes -, já que também entram em um processo de luto e perda que os acompanham entre o início da manifestação da co-dependência até o fim de suas relações doentias e mudanças de papéis assumidos até então, e que de alguma forma tornaram-se uma parte importante e intensamente presentes em suas vidas.

Relações estas, que por mais que possam ter sido vividas de forma triste, traumática e frustrante, passaram a representar um estilo de vida de um sistema familiar disfuncional. Portanto, o fim dos papéis adotados e vividos dentro desta dinâmica familiar doentia, representa um luto. E por mais incrível que possa parecer, é uma despedida dolorosa, pois representava um movimento familiar já bem estabelecido durante anos e que agora, no caminho da recuperação, tende a se desfazer, o que envolve um corajoso mergulho de cada membro em busca de si mesmo, o que não é nada fácil.

O primeiro desses estágios identificado por Elisabeth Kübler Ross foi o da negação, onde o doente se recusa a aceitar o diagnóstico de sua condição fatal. Devemos entendê-lo como um processo natural de defesa, tendo em vista o tamanho da dor experimentada e a incapacidade momentânea em suportá-la. Por isso essa negação de alguma forma vem aliviar o impacto da notícia, buscando acima de tudo um conforto e um suposto reequilíbrio emocional.

Já nos dependentes químicos e em seus familiares, a negação acontece de forma intensa assim que a doença começa a se manifestar ou nos primeiros sinais do uso contínuo de substâncias psicoativas. Como já tive a oportunidade em dizer em outro artigo, * o dependente químico nega que é um doente por acreditar erroneamente que não consegue viver sem a substância de que tanto precisa: a droga, não suportando a idéia de abster-se do que se tornou dependente e que de alguma forma o “alivia” * .

No caso dos co-dependentes, além de negarem a doença de seu familiar, *não só para se protegerem da dor e do sofrimento vivido, como também para, ilusoriamente “proteger” o seu dependente;* negam também sua dependência emocional, pois acreditam ainda que a dinâmica familiar está caótica apenas em função da doença e não em função do próprio sistema disfuncional o qual estão inseridos e submetidos.

Olhar para o dependente químico e sua doença é uma forma que encontram de se protegerem de um emaranhado de sentimentos confusos e obscuros que os perseguem todo o tempo, como a impotência diante do outro, a culpa que acreditam pertencer-lhes e principalmente por não conseguirem reverter a situação. Carregam assim a ilusão de controle sobre o dependente químico e sua doença.

Encontrar um novo modo de viver com responsabilidade e maturidade por suas próprias vidas e atos requer coragem, esforço e determinação. As antigas relações com o dependente químico, ainda que doentias, traziam a ilusão de segurança, pois de alguma forma já sabiam se posicionar e lidar com elas. Por isso, o novo passa a ser ameaçador.

Diante disto cabe a nós profissionais traduzir com cautela essa defesa utilizada, oferecendo-lhes suficiente segurança para que possam enxergar com serenidade o que realmente está acontecendo em seu interior e no sistema familiar, encorajando-os, acima de tudo, às mudanças necessárias e mais saudáveis.

Uma vez assimilado o diagnóstico e prognóstico inevitáveis, o paciente terminal, segundo Elisabeth Kübler Ross, entra numa segunda fase: a fase da revolta e raiva. Procuram culpar algo ou alguém por sua “condenação” e por ter sido “o escolhido” pela doença adquirida e manifesta. Queixa-se muito, reclamando atenção, numa tentativa de não se fazer esquecido. É muito comum a auto-piedade e as agressões verbais, como uma forma de mostrar que ainda está vivo. É uma fase onde familiares e profissionais devem entendê-la como uma manifestação de sua dor e não como uma agressão pessoal. “Porque isso está acontecendo comigo?”, “O que fiz para merecer isto?”, “Por que, Por que e Por que?” são os pensamentos e as frases mais presentes neste momento.

No alcoolismo e na drogadicção, quando esse quadro se torna mais evidente o dependente químico demonstra raiva, apesar de interiormente sentir culpa e vergonha por estar preso e vencido pelo poder das drogas sobre ele.

Os co-dependentes, por sua vez, costumam culpar algo ou outras pessoas pela manifestação da doença de “seu” dependente, como más companhias, término de relacionamentos com esposas(os) ou namoradas(os), incompetência educacional do parceiro(a), etc.; ao mesmo tempo em que constatam que seus esforços para reverter esse quadro de nada adiantaram. Por isso sentem raiva. Raiva dos outros, raiva de si mesmos, raiva do dependente, da doença e da vida. Carregam frustração, revolta e ressentimento. Neste estágio é comum lançarem mão de atitudes mais enérgicas com o “seu” dependente, como também adotarem um papel de mártires num jogo silencioso e hostil.

O objetivo final deste processo no tratamento é ajudá-los a se responsabilizarem por suas próprias atitudes e sentimentos, convidando-os a olharem para si mesmos e buscarem uma forma de lidar com sua própria vida, sem deixarem que a doença ou o dependente escolham por eles. É o melhor momento de se trabalhar o desligamento emocional.

Mas, desligamento emocional não é uma atitude fácil de se elaborar e aceitar. Quando percebem que sua raiva e/ou auto-piedade são destrutivas, resistem mais uma vez em admitirem sua impotência diante do outro e não se “rendem” tão fácil assim. Entram então na terceira fase: a fase da negociação. Vivem novamente a ilusão de controle da situação, interferindo no processo de responsabilidade e de escolha do dependente através de chantagens emocionais. Questionam e resistem às orientações do profissional responsável e aos programas de recuperação, numa tentativa de negociarem seus desejos e vontades, muitas vezes inadequados, pois acreditam que ainda podem modificar o dependente. Nosso papel como profissionais é fazê-los entender e sentir que só é possível se responsabilizarem por suas próprias escolhas e mostrar-lhes a necessidade de abraçarem a própria vida.

Segundo Elisabeth Kübler Ross, o paciente terminal também vive um processo parecido de negociação. Tendo expressado revolta e raiva por sua doença e não conseguindo nenhum retorno de melhora, aceita então o fato de que vai morrer, mas tenta adiá-lo. Procura negociar o prazo de sua morte com o médico e até mesmo a cura com Deus, normalmente através de promessas ou orações. Busca um milagre, mais uma chance, e implora mais um dia de vida ou uma última visita da família. E, tão logo reconheça que tais negociações se tornaram também sem efeito e impossíveis vivem então a quarta fase: a depressão.

É comum fazer uma revisão de sua vida, passando por longos períodos em silêncio e de forma reflexiva. Aceita o fim próximo e se prepara para a morte iminente. É um período que precede a aceitação, a última fase; aguardando então a evolução natural de sua doença, reconhecendo sua mortalidade. E ainda que tenha alguma esperança de sobrevivência, neste momento a pessoa não se angustia mais. Busca apenas terminar algo que deixou por resolver, fazer suas despedidas com paz e tranqüilidade, se preparando assim para a proximidade do fim, ou seja, aceitar sua própria morte com dignidade.

A depressão no dependente químico e nos co-dependentes se manifesta também da mesma forma, após uma nova constatação de que são de fato impotentes diante do álcool, das drogas e do outro e que não podem modificá-los. Assim vivenciam um período de baixa emocional, chorando muitas vezes de forma silenciosa. Normalmente nesta fase concordam em procurar os grupos de mútua-ajuda e iniciam com mais facilidade o 1º Passo da Programação dos 12 passos:

(A.A. e Al-Anon) – “Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o controle de nossas vidas”.

(N.A.) – “Admitimos que éramos impotentes perante a nossa adicção, que nossas vidas tinham se tornado incontroláveis.”

(Nar–Anon) - “Admitimos que éramos impotentes perante o adicto e que tínhamos perdido o controle de nossas vidas”.

Infelizmente, muitos dependentes e co-dependentes param por aí, e se recusam a prosseguir até o último estágio de seu luto. Preferem continuar sofrendo, prosseguindo no processo de dependência ativa, sendo mártires ou reféns da própria doença e da dependência emocional. Resistem em prosseguir em direção a recuperação. Possivelmente continuarão sofrer por muito tempo ainda. Neste momento de recaída emocional, é fundamental procurar o incentivo de outras pessoas, tanto dos grupos de mútua-ajuda como dos profissionais responsáveis para que continuem seu tratamento, aceitando seus próprios sentimentos e avançando assim até a última e necessária fase de seu trabalho de luto – a aceitação, estágio que se vivenciado leva-os enfim a uma efetiva mudança.

Então, o sistema familiar muda, os papéis mudam, as pessoas mudam, o dependente químico muda. De família disfuncional (família onde o relacionamento entre os seus membros são distorcidos, bloqueados e rígidos sem a permissão de mudanças em sua dinâmica) passa a ser uma família funcional ( família onde existe confiança, respeito e cooperação entre seus membros e abertura para mudanças, mesmo em momentos difíceis), madura e saudável. Encerram o processo de luto e finalmente aceitam a morte de seus relacionamentos dependentes e doentios. E só assim conseguem conquistar serenidade e a determinação em construir uma “nova” vida.

O dependente químico por sua vez, descobre que pode viver sem a bebida e as drogas e assim renasce. E os co-dependentes descobrem que podem se sentir confortáveis, apesar de sua impotência diante de “seu” dependente. A incapacidade de modificar o comportamento do outro já não lhes tira mais o sossego, entregando a partir daí a responsabilidade da recuperação para o próprio dependente químico. Enfim, aprendem realmente o que significa o desligamento emocional, passando a se importar com ele e não por ele e sentindo-se livres para amar e renascer após a perda, o luto e a morte de seus relacionamentos patológicos. “Mas, tudo isso, vivendo “um dia de cada vez” e só por hoje”.

Como podem perceber, assim como o paciente terminal enfrenta a própria morte de forma tranqüila, os dependentes químicos e os co-dependentes que desejam e investem na recuperação enfrentam o fim de seus relacionamentos doentios e resgatam suas próprias vidas, bem como a auto-estima e a autoconfiança. A partir de então se estabelece uma dinâmica mais digna e saudável e de um gratificante processo de evolução pessoal, emocional e espiritual onde, se responsabilizar pelos próprios atos e sentimentos é o pleno exercício da liberdade. A recuperação enfim, deixa de ser um fardo e se torna entusiasmo. E dizer “eu sou responsável” passa a ser uma alegria incontida.
Portanto, negação, raiva, negociação, depressão e aceitação são os 5 estágios do caminho que os dependentes químicos e co-dependentes percorrem até conseguir encontrar a serenidade e o resgate de suas próprias vidas.


Por Marília Teixeira Martins - psicóloga clínica, atua na área de dependência química em Belo Horizonte- MG. Contato: www.universoadicto.com.br - A autora pede para citar a autoria do artigo caso haja reprodução parcial ou integral do mesmo.

 

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